As entidades espirituais na Umbanda Omolokô
01:56 | Author: Mário Filho
Por Mário Silva Filho*

    Muito se questiona sobre os trabalhos espirituais na Umbanda Omolokô, especialmente no contexto de um culto híbrido ou mestiço. A Umbando Omolokô nasce nos anos 40, motivada pelo Tata ti Inkice Tancredo da Silva Pinto (cuja pequena biografia pode ser vista em https://sites.google.com/site/caboclopanteranegra/textos-doutrinarios-e-informativos/tancredo-da-silva-pinto---pequena-biografia-do-incentivador-da-umbanda-omoloco). Tata Tancredo não aceitava o embranquecimento da Umbanda e se conseqüente afastamento de suas origens africanas.
    Para evitar esse processo de embranquecimento, principalmente após o 1º Congreso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda, realizado em 1941 (análise desse Congresso pode ser vista em https://sites.google.com/site/caboclopanteranegra/textos-doutrinarios-e-informativos/importancia-do-estudo-da-mitologia-africana) Tata Tancredo divulga vários textos, inclusive no jornal carioca O Dia, falando da origem africana que tem a Umbanda e que esta não deve se afastar, nem abandonar sua origem africana.
    Ora a Umbanda é fruto da mestiçagem e da hibridação, conforme aponta GRUZINSKI[1] (2001, p. 62). Para SILVA FILHO ela (Umbanda) é uma mescla de várias tradições mágico-religiosas: catolicismo popular, espiritismo popular, pajelança, culto a divindades africanas (Orixás, Inkices, Bacuros e Voduns) e, hodiernamente, manifestações da Nova Era, tais como cromoterapia, florais, aromaterapia, reiki, contato com seres interplanetários etc[2].
    As maiores influências no culto da Umbanda Omolokô são as divindades de origem africana e as entidades do Universo Umbandista e de outras manifestações afro-brasileiras ou afro-ameríndias, tais como o Terecô, o Catimbó-Jurema, a Encantaria, a Barba Soera ou Babaçuê, o Santo Daime, a Barquinha etc.
    Num trabalho espiritual da Umbanda Omolokô podem ser vistos entidades de todos os cultos citados anteriormente, sendo que isso não é uma estranheza. Há as entidades clássicas da Umbanda, tais como Preto(a) Velho(a), Criança, Caboclo, Exus e Pombagiras, e de outros cultos tais como Marinheiros da Barquinha, Santo Daime e Encantaria; Mestres do Catimbó-Jurema; Encantados (animais que se manifestam mediunicamente: boto, onça, jaguatirica, aves etc, ou seres míticos: sereia, iara etc) da Encantaria, Barba Soera (Babaçuê), Terecô.
    Não existe apenas uma Umbanda, há várias, conforme se pode ver em inúmeros endereços da Internet. A Umbanda Omolokô é uma dessas Umbandas. Academicamente podemos concluir que a Umbanda é fruto da modernidade ou pós-modernidade, em que a individualidade “fala” mais alto. Como afirma SILVA FILHO o campo religioso brasileiro, além de mestiço, é sincrético, híbrido e multicultural, fruto de miscigenações variadas, de novas construções e de ressignificações e/ou, talvez, fruto da pós-modernidade, em que a livre escolha e a múltipla pertença sejam a mola mestra das bricolagens que visam a satisfazer as aspirações individuais[3].
    Não estamos a julgar esta ou aquela expressão umbandista, nem queremos dizer que a Umbanda Omolokô seja melhor ou pior. Em nossa concepção a Umbanda Omolokô é a mais “honesta”, no sentido de que sua manifestação é a mais próxima daquilo que as entidades que povoam os cultos afro-brasileiros ou afro-ameríndios representam. Na Umbanda Omolocô as entidades não precisam se utilizar dos comportamentos “doutrinados” em que tudo é padrão. Na Umbanda Omolokô as entidades podem se manifestar livremente, e isso é muito desejável. Não são as pessoas que determinam como as entidades devem se manifestar, mas o comportamento ético do médium, que com sua melhora ética cresce espiritualmente, atraindo para si entidades com o mesmo comportamento.


* Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública e Ciências da Religião, Mestrando em Ciências da Religião (todos pela PUC/SP)
[1] GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
[2] Silva Filho, Mário. Campo religioso brasileiro é mestiço. Trabalho apresentado ao Curso de Antropologia da Religião, do Curso de pós-graduação stricto sensu da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2010, pág. 03.
[3] Idem, pág. 04.

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